Os últimos anos têm sido prósperos no desenvolvimento de novas soluções para, por um lado, lidar com comunicações multimédia na web; e por outro, providenciar interação direta entre diferentes utilizadores, vulgarmente conhecida por interação peer-to-peer. O desenvolvimento de uma solução que seja capaz de integrar estas áreas obriga a uma reformulação da pilha protocolar de aplicações, como os web browsers através da definição de um conjunto de protocolos e codecs a implementar e, todo o modo de exposição destas capacidades para os programadores de aplicações, garantindo uma fácil integração. Torna-se ainda necessário dotar a solução com a capacidade de lidar com diferentes circunstâncias como o atravessamento de NATs e Firewalls, sinalização e disposição dos peers.
As soluções proprietárias continuam a dominar este mercado, destacando-se o Skype e o Google Hangouts. Todavia, nos últimos tempos, temos assistido a esforços por parte da indústria na procura de uma solução normativa que confira interoperabilidade entre aplicações e, nada melhor, do que utilizar uma plataforma comum, como o web browser, para implementação e divulgação desta nova norma. Surgem duas propostas: WebRTC e ORTC, e uma terceira, OpenWebRTC da Ericsson, com contornos ligeiramente proprietários.
O presente documento pretende introduzir o leitor neste ambiente, apresentando a arquitetura clássica de um sistema deste tipo, tentando ao máximo interligar com conceitos estudados na disciplina de Comunicação Multimédia. Tentar-se-á igualmente, dentro do possível, construir um documento atualizado, enquadrando as várias discussões, guerras entre vendedores, aplicações de voz e vídeo e até outras aplicações derivadas da introdução deste novo paradigma.
Uma solução capaz de juntar a esta nova e mais sofisticada web os sistemas em tempo real, onde aplicações são embebidas nos browsers, começa por considerar a existência de duas entidades, vulgarmente conhecidas por peers ou pares.
A web até então encontrava-se desenhada para que quando dois peers pretendessem comunicar um com o outro, as suas mensagens passassem por um servidor web. Recorrendo a um exemplo clássico, quando a Alice queria enviar uma mensagem ao Bob, estabelecia uma ligação com um determinado servidor, o Bob por sua vez também estabelecia uma ligação idêntica e a mensagem era enviada primeiro para o servidor e posteriormente do servidor para o Bob. O exemplo apresentado é facilmente compreendido por todos nós dado que o comportamento do servidor se assemelha em muito ao de um carteiro. Porém, facilmente conseguimos compreender que a este processo está associado um maior atraso do que quando decidimos entregar uma carta pessoalmente a um determinado individuo.
Futuro
Conforme apresentado anteriormente, a busca de uma solução normativa tem, como sempre nestas situações, originado disputas pela sobreposição de interesses. Considerando três dos principais players do mercado: Google, Microsoft e Apple, o consenso não tem sido fácil de alcançar. Vejamos, quando a Google propõe uma solução as outras duas demoram a responder, até que se começam a envolver no processo e apenas muito tempo depois buscam fazer parte da solução ou desenvolver a sua “própria solução normativa”. A Apple, aqui referida, acaba por ser praticamente excluída da totalidade do documento uma vez que se tem autoexcluído da discussão. O principal motivo para esta atitude é a existência da aplicação nativa, principalmente vocacionada para o Universo Apple, disponível tanto em MacOS como nas plataformas móveis iOS, o FaceTime.
Por outro lado existe o mundo das operadoras de telecomunicações. Estas, sentido o foco do seu negócio a migrar da voz para os dados móveis, temem tornar-se gestores de uma mera rede de transporte de dados, tal como existe por exemplo no mercado da Energia. O aparecimento de soluções desenvolvidas pelo Skype, Google, Facebook, etc., vulgarmente designadas de Over-the-Top (OTT) fez com que algum valor acrescentado fosse-se dissipando.
Peculiarmente, as operadoras de telecomunicações acabam por procurar no WebRTC e noutros esforços de normalização uma nova afirmação, uma tentativa de antecipação e consequente tentativa de ganhar terreno para as ditas OTTs. Por exemple, o projeto europeu reThink, que tem por objetivos desenhar as redes de comunicação do futuro, propõe a criação de várias instâncias de servidores TURN na rede, capazes de direcionar tráfego especifico e desse modo cobrar um novo conjunto de serviços.
Por fim existe o problema do peer-to-peer. Dado o seu historial de uso para fins menos lícitos, existe uma grande apreensão por parte dos produtores de conteúdos quando surge uma solução deste tipo. Surge assim a necessidade de prova do real valor de uma solução como a apresentada, mesmo que por vezes o seu uso possa não ser o mais indicado.