Tem-se assistido nos últimos anos ao aparecimento em larga escala e à vulgarização de produtos electrónicos digitais de produção e consumo audiovisual, como câmaras de vídeo digitais (de baixa a alta resolução), ecrãs LCD e plasma de resolução e dimensão crescentes, dispositivos multimédia móveis, como telefones móveis e leitores e gravadores de áudio, nomeadamente do formato MP3, entre muitos outros. Em simultâneo, tem explodido o número de conteúdos multimédia gerados por e para estes dispositivos, conteúdos esses que justificam e potenciam a sinérgica explosão dos dispositivos electrónicos referidos (e vice-versa).
Este fenómeno de explosão crescente de equipamentos e conteúdos multimédia que se tem vindo a observar deve-se à característica psico-sociológica do ser humano da necessidade de telepresença: nas sociedades modernas (desenvolvidas), o Homem gosta de ser transportado para um mundo alternativo (fictício ou real) emulado por dispositivos que manipulem os seus sentidos (actualmente, audição e visão) por forma a criarem esse mundo. O primeiro sistema integrado (audiovisual) doméstico de telepresença, denominado televisão, apareceu na década de 1920. Desde então, muitos melhoramentos têm sido feitos a esse sistema de modo a ampliar a sensação de telepresença fornecida ao utilizador, nomeadamente a passagem de imagens a preto e branco para imagens a cores, a criação de uma noção de espacialidade sonora através do aumento do número de canais de som transmitidos, o aumento da resolução espacial da imagem transmitida, entre muitos outros.
Este artigo apresenta mais um melhoramento nesse sistema de telepresença que tem sido um alvo de estudo nos últimos anos: a televisão baseada em sistemas de múltiplos pontos de vista (sistemas multiview), em particular a televisão com livre escolha do ponto de vista (FTV — Free Viewpoint Television) e a televisão estereoscópica (3DTV). Começa-se por definir estes dois sistemas de televisão e por expor a arquitectura envolvida no processo de produção de conteúdos para estes sistemas. Seguidamente, detalham-se algumas abordagens e paradigmas associados à realização de cada um dos blocos da arquitectura. Após esta abordagem técnica, discutem-se consequências e impactos que estes sistemas podem vir a ter a nível individual no ser humano e a nível sociológico. Finalmente conclui-se o artigo observando os sistemas descritos de um modo geral e inferindo prospectivas futuras para estes.
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