Arquitectura

Sendo altamente impulsionado pelas grandes companhias de telecomunicações, o serviço de IPTV assenta essencialmente nas infra-estruturas já possuídas pelos operadores. Ao invés de criar uma nova rede para distribuição de televisão como acontece com algumas tecnologias concorrentes, os operadores procuram rentabilizar os investimentos efectuados e minimizar os custos associados à nova tecnologia.

Os operadores de telecomunicações possuem redes de elevada dimensão e com uma grande taxa de penetração ao nível dos países, o que se torna particularmente indicado para a oferta do serviço de televisão, podendo chegar a um elevado número de pessoas. No entanto, e ao contrário de redes de distribuição de televisão que foram pensadas de raiz para o efeito, as redes de cobre das telcos têm na sua origem o serviço telefónico, com requisitos de largura de banda muito inferiores o que, ainda hoje, tem grande impacto nas redes de acesso.

Embora com recentes avanços ao nível do acesso em redes de cobre, nomeadamente através das tecnologias xDSL, tenha sido possível oferecer o serviço de acesso à Internet designado de banda larga (superior a 2 Mbps), estas dificuldades vão ter um forte impacto ao nível da arquitectura dos sistemas de IPTV. Nomeadamente, levaram ao estabelecimento de um tipo de arquitectura baseada no conceito de Vídeo Digital Multiplexado (SDV - Switched Digital Video)[1], que será explicado de seguida.

Arquitecturas SDV

As arquitecturas Switched Digital Video caracterizam-se por sistemas de distribuição de televisão/vídeo nos quais apenas os canais seleccionados são efectivamente transmitidos até ao cliente. Em oposição, os sistemas tradicionais de televisão por cabo (analógica ou digital) e de televisão por satélite levam até ao equipamento do cliente um conjunto alargado de canais em simultâneo através do mesmo meio de transmissão.

No caso do IPTV, a utilização de IP Multicast, nomeadamente do protocolo IGMP (IP Group Membership Protocol), irá permitir gerir os canais seleccionados a cada momento por cada cliente, levando a uma eficiente utilização dos recursos da rede. Este processo de selecção de canal terá um papel importante no serviço oferecido aos utilizadores, nomeadamente o tempo de mudança de canal, que é bastante diferente do processo selecção do canal televisivo por sintonização, em se escolhe um dos vários canais que chegam ao equipamento através do meio de transmissão.

Embora possua algumas desvantagens, note-se que só através do conceito de multiplexagem dos canais de vídeo é possível oferecer o serviço de televisão através da rede de cobre devido aos seus baixos débitos. Uma outra vantagem dos sistemas SDV prende-se com a ausência de um limite teórico em relação ao número de canais que podem ser distribuídos até ao cliente. Isto corresponde a um passo no sentido da personalização dos conteúdos, podendo tornar-se num dos valores acrescentados que a tecnologia pode oferecer.

Elementos Básicos da Arquitectura

A arquitectura genérica de um sistema IPTV passa pela existência dos elementos básicos presentes na figura 1, que são explicados de seguida. De notar a presença na figura da bidireccionalidade inerente a uma rede de distribuição IPTV o que é um dos factores de distinção em relação a outros modelos de distribuição do serviço de televisão.[2][3]

Figura 1 – Elementos básicos da arquitectura

Vídeo Head End

O Vídeo Head End é o ponto da rede onde são adquiridos os sinais de televisão e restantes conteúdos de forma a serem preparados para posterior distribuição numa rede IP.

As emissões de estações televisivas podem ser adquiridas de diversas formas. A título de exemplo, podem ser capturadas via transmissão digital por satélite, através de outras redes de distribuição, a partir de ligações de fibra óptica aos próprios centros de produção das estações televisivas (como acontece com a PT Comunicações, em Lisboa [4]) ou mesmo através de transmissões analógicas terrestres. Outros conteúdos a serem distribuídos aos clientes, através do serviço de Vídeo a Pedido, por exemplo, são também introduzidos e guardados ao nível do Vídeo Head End.

A principal função deste elemento é codificar os conteúdos num formato de vídeo digital, por exemplo MPEG-2/4, e encapsulá-los posteriormente em pacotes IP de forma a serem transmitidos na rede.

Rede Core IP do Fornecedor de Serviços

A rede core do fornecedor de serviços será responsável pelo transporte eficiente das tramas de vídeo ao longo da rede pelo que é necessário que forneça os mecanismos de Qualidade de Serviço (QoS) para um transporte eficiente do vídeo.

Alguns dos mecanismos de transporte de vídeo em redes IP e respectivas vantagens e desvantagens para um sistema deste tipo serão abordados no capítulo 4.

Rede de Acesso do Fornecedor de Serviços

A rede de acesso é a responsável pela ligação da rede do fornecedor de serviços até à rede doméstica do cliente. Também conhecida como Last Mile, a ligação utiliza normalmente a infra-estrutura já existente por parte dos operadores de telecomunicações, neste caso a rede de cobre. Desta forma, principalmente por uma questão de minimização dos custos e de rentabilização da infra-estrutura existente, a tecnologia normalmente utilizada para o acesso em IPTV é o ADSL. A rede de acesso deverá cumprir os requisitos de qualidade necessários ao transporte de vídeo pelo que deverá permitir débitos superiores a 8 Mbps (para televisão e acesso à internet).

Devido aos crescentes requisitos de largura de banda associados a novos serviços que surjam com IPTV, as operadoras poderão utilizar alternativas baseadas em redes de fibra óptica passiva (PON - Passive Optical Network) até cada edifício (FTTB - Fiber To The Building) ou mesmo até casa do cliente (FTTH - Fiber To The Home), permitindo débitos muito mais elevados.

Rede de Acesso do Fornecedor de Serviços

A rede doméstica é responsável por distribuir o serviço de IPTV através da residência do cliente. Existem vários tipos de tecnologias utilizadas em redes domésticas mas nem todas são indicadas para fornecer este tipo de serviço. Dados os requisitos de largura de banda e de resistência a erros para o serviço de televisão, tecnologias que usem uma infra-estrutura cablada como Ethernet ou HomePlug (utilização da rede eléctrica doméstica) serão mais indicadas que tecnologias sem fios. No entanto, normas recentes das redes sem fios 802.11 suportam já requisitos de QoS pelo que se podem afigurar como uma solução possível no futuro.

Finalmente, o equipamento terminal ao qual se liga o televisor designa-se por set-top box (STB). No serviço IPTV, com a utilização de software adequado, um PC pode também ser o equipamento terminal do sistema do lado do cliente.

Rede de Acesso do Fornecedor de Serviços

Embora não representado na figura como elemento básico da arquitectura, o termo middleware é usado para descrever o software existente em cada um dos componentes que torna o serviço de IPTV possível no seu conjunto.

É responsável pela gestão dos utilizadores, pela gestão dos conteúdos e pela gestão dos serviços. Por exemplo, é ao nível do middleware que será possível diferenciar os serviços fornecidos a cada cliente (personalização) ou, ao nível dos conteúdos, limitar o acesso de determinados utilizadores a certos conteúdos. Ao nível da set-top box, controla a interacção com o utilizador sendo, por isso, a imagem que este tem de todo o sistema.

É através da camada de middleware que é possível diferenciar a oferta de um serviço de televisão baseado em IP, explorando a interacção com diferentes serviços e aplicações e caminhando no sentido da convergência.

Exemplo de Arquitectura IPTV sobre ADSL

Na figura 2, podemos observar um exemplo de uma solução para o fornecimento do serviço de IPTV por um operador de telecomunicações [5].

Figura 2 – Arquitectura IPTV


No Main Office encontramos as funcionalidades de Head End com as várias formas de aquisição de conteúdos. A este nível encontram-se também o codificador de Televisão em Directo, o servidor de serviços de Vídeo a Pedido e o servidor de middleware responsável pelos aspectos enunciados na secção anterior. A gestão da transmissão multicast dos canais é efectuada no Main Office através do Broad Service Router (IGMP router).

Podemos também observar a existência da rede core do operador que permite interligar o Main Office à Internet e aos vários Regional Offices. Ao nível deste ultimo, pode ser efectuado algum processamento dos grupos multicast assim como a aquisição de conteúdos para a distribuição regional.

Finalmente, os serviços serão fornecidos ao utilizador final através da tecnologia ADSL (DSLAM do lado da rede, e modem ADSL no cliente), culminando nos equipamentos terminais que podem ser STBs ou PCs.

 
 

Capítulos